O ciclo de vida, inteiro

A disciplina de Business Process Management estrutura-se em um ciclo de vida que Dumas e colaboradores organizam em seis fases. O ponto relevante é que o diagrama aparece na segunda:

  1. Identificação — arquitetura de processos e priorização por critério de impacto;
  2. Descoberta — modelagem do processo como ele é (as-is);
  3. Análise — identificação e quantificação de problemas;
  4. Redesenho — construção do processo como deveria ser (to-be);
  5. Implementação — mudança organizacional e sistêmica;
  6. Monitoramento — medição contínua e retorno ao início.

Projetos que entregam o mapeamento as-is e encerram param na fase 2 de 6. O diagrama é insumo de diagnóstico, não resultado.

O que a notação padroniza

O BPMN 2.0, mantido pelo Object Management Group, é a notação padrão. Ele padroniza a semântica dos elementos — eventos, atividades, gateways, raias, fluxos de mensagem — de modo que o modelo tenha leitura unívoca entre analistas e seja executável por motores de processo.

O que a notação não faz: identificar o problema, dimensionar o impacto ou indicar a solução. Modelo BPMN impecável de processo ruim documenta o processo ruim com precisão.

Um subconjunto reduzido de elementos BPMN cobre a grande maioria dos processos administrativos. Modelos que empregam elementos avançados sem necessidade reduzem a legibilidade para quem executa o processo — que é o público que precisa entendê-lo.

Análise: onde o valor é encontrado

A fase de análise é a que produz o retorno do projeto. As técnicas com maior rendimento prático:

  • Análise de valor agregado — classificação de cada atividade em: agrega valor ao cliente, agrega valor ao negócio (controle, conformidade), ou não agrega. A terceira categoria é o alvo imediato;
  • Análise de tempo de ciclo — decomposição entre tempo de processamento e tempo de espera. Em processos administrativos, a espera domina o ciclo com folga;
  • Análise de gargalo — identificação da restrição que governa a capacidade do fluxo;
  • Análise de causa-raiz — diagrama de causa e efeito e os cinco porquês, aplicados aos defeitos recorrentes;
  • Mineração de processos — quando há log de sistema, reconstrói o fluxo real executado, que difere sistematicamente do fluxo declarado em entrevista.
Figura 1 · Esquema ilustrativo
Composição do tempo de ciclo em processo administrativo
Espera em fila64%Aguardando aprovação19%Retrabalho8%Processamento efetivo9%
Agrega valorNão agrega valor
Esquema ilustrativo do padrão descrito em Dumas et al., Fundamentals of Business Process Management: em processos administrativos a espera domina o tempo de ciclo. Otimizar a velocidade de execução das tarefas atua sobre a menor parcela.

A relação entre tempo de processamento e tempo de ciclo total — a eficiência do ciclo — costuma revelar o achado mais acionável: o problema raramente está na velocidade de execução das tarefas.

Redesenho com heurísticas conhecidas

O redesenho não precisa ser inventivo. Existe repertório consolidado de heurísticas com efeito documentado:

  • Eliminação de atividades sem valor agregado e de aprovações redundantes;
  • Paralelização de atividades sem dependência sequencial real;
  • Triagem — separar casos simples de complexos e tratá-los por caminhos distintos;
  • Antecipação de decisão — mover o ponto de decisão para o início, evitando retrabalho a jusante;
  • Empoderamento — reduzir níveis de aprovação por alçada baseada em risco;
  • Automação — aplicada por último, sobre processo já simplificado.

A ordem importa. Automatizar processo não simplificado torna a complexidade permanente e mais custosa de alterar.

Medir para não regredir

Sem a fase de monitoramento, o processo redesenhado degrada. As dimensões de desempenho a acompanhar são quatro — tempo, custo, qualidade e flexibilidade — com a ressalva de que há trade-off entre elas: ganho de flexibilidade frequentemente custa tempo, e ganho de velocidade pode custar qualidade.

Definir qual dimensão prevalece é decisão estratégica, não técnica. É o ponto em que o projeto de processos precisa estar ancorado na estratégia declarada da empresa — do contrário, otimiza a dimensão errada com competência.

Referências

  1. ASSOCIATION OF BUSINESS PROCESS MANAGEMENT PROFESSIONALS. BPM CBOK: guia para o gerenciamento de processos de negócio — corpo comum de conhecimento. 3. ed. [S. l.]: ABPMP, 2013.
  2. DUMAS, M.; LA ROSA, M.; MENDLING, J.; REIJERS, H. Fundamentals of business process management. 2. ed. Berlin: Springer, 2018.
  3. HAMMER, M.; CHAMPY, J. Reengineering the corporation: a manifesto for business revolution. New York: HarperBusiness, 1993.
  4. OBJECT MANAGEMENT GROUP. Business process model and notation: BPMN. Versão 2.0. Needham: OMG, 2011.
  5. OHNO, T. Toyota production system: beyond large-scale production. Cambridge: Productivity Press, 1988.
  6. VAN DER AALST, W. Process mining: data science in action. 2. ed. Berlin: Springer, 2016.