O erro de partida: três cenários na mesma reta
A prática difundida de apresentar cenários "otimista, realista e pessimista" não é prospectiva. São três pontos na mesma reta, variando intensidade de uma única variável — geralmente crescimento de receita. O exercício não amplia o repertório de futuros considerados; apenas gradua o futuro já esperado.
A prospectiva, na formulação de Godet, e a prática de planejamento por cenários consolidada por Wack e van der Heijden na Shell, operam de modo diferente: identificam incertezas estruturalmente distintas e constroem futuros qualitativamente diversos, não graduações de um mesmo futuro.
Projeção e cenário respondem coisas diferentes
| Projeção / forecast | Cenário | |
|---|---|---|
| Pressuposto | O passado informa o futuro | Há rupturas possíveis |
| Produto | Valor esperado com intervalo | Narrativas internamente consistentes |
| Horizonte útil | Curto e médio prazo | Médio e longo prazo |
| Uso | Orçamento, metas | Teste de robustez da estratégia |
Cenários não substituem projeções. Servem para responder a uma pergunta que a projeção não formula: nossa estratégia sobrevive se o mundo não seguir a tendência?
Forças motrizes e incertezas críticas
O método parte do levantamento das forças que moldam o setor — demográficas, tecnológicas, regulatórias, econômicas, ambientais. Cada força é classificada em duas dimensões:
- Impacto sobre a decisão em análise;
- Grau de incerteza quanto à sua evolução.
As forças de alto impacto e baixa incerteza são elementos predeterminados — entram em todos os cenários. Envelhecimento populacional em horizonte de dez anos é predeterminado: já está nas coortes existentes.
As forças de alto impacto e alta incerteza são as incertezas críticas. São elas, e apenas elas, que estruturam os eixos dos cenários.
Essa triagem é o filtro que impede o exercício de degenerar em lista de tendências. Uma força muito incerta mas de baixo impacto não merece eixo; uma força de alto impacto já determinada não gera cenário — gera premissa comum.
Por que a matriz 2×2
Selecionadas duas incertezas críticas independentes, a combinação de seus polos produz quatro cenários. A estrutura tem virtudes práticas: força a consideração de combinações contraintuitivas — justamente aquelas que o planejamento linear descarta — e mantém o número de futuros administrável.
Requisitos de qualidade de cada cenário:
- Consistência interna — não conter elementos mutuamente incompatíveis;
- Plausibilidade — decorrer de encadeamento causal defensável, não de ruptura arbitrária;
- Utilidade decisória — implicar escolhas diferentes das dos demais;
- Nome próprio — designação memorável, porque cenário que a organização não consegue nomear não é usado em discussão.
Cenário que não altera nenhuma decisão em relação aos outros é redundante, ainda que bem escrito.
Do cenário à decisão: robustez e sinais
O produto acionável do exercício não é o conjunto de narrativas. São dois artefatos derivados:
- Matriz de robustez — cruza iniciativas estratégicas com cenários. Iniciativas que se sustentam em todos os quatro são no-regret: executam-se de imediato. As que dependem de um cenário específico são opções, e devem ser estruturadas como tal — investimento faseado com ponto de decisão.
- Painel de sinais antecedentes — indicadores observáveis que sinalizam para qual cenário a realidade está convergindo. É o que converte o estudo em instrumento de monitoramento em vez de documento datado.
Métodos complementares reforçam o processo: o Delphi, desenvolvido na RAND, estrutura consulta a especialistas em rodadas com retorno anônimo, reduzindo ancoragem e efeito de autoridade; a análise estrutural de Godet ajuda a identificar variáveis motrizes em sistemas com muitas interdependências.
Referências
- DALKEY, N.; HELMER, O. An experimental application of the Delphi method to the use of experts. Management Science, v. 9, n. 3, p. 458-467, 1963.
- GODET, M. Creating futures: scenario planning as a strategic management tool. 2. ed. London: Economica, 2006.
- SCHWARTZ, P. The art of the long view: planning for the future in an uncertain world. New York: Currency Doubleday, 1996.
- TETLOCK, P.; GARDNER, D. Superforecasting: the art and science of prediction. New York: Crown, 2015.
- VAN DER HEIJDEN, K. Scenarios: the art of strategic conversation. 2. ed. Chichester: Wiley, 2005.
- WACK, P. Scenarios: uncharted waters ahead. Harvard Business Review, v. 63, n. 5, p. 72-89, set./out. 1985.